Curiosidades

Astrobiologia: é possível detectar vida em outros locais do Sistema Solar?

A astrobiologia é uma das áreas “quentes” do momento. Nos últimos cinco anos, houve enormes avanços que permitiram os cientistas da área a chegarem muito mais perto de uma resposta para a famosa pergunta: “Será que estamos sozinhos no Universo?”.

Você já deve ter ouvido falar sobre a detecção do gás fosfina em Vênus, que causou uma grande repercussão por ser considerado um possível indício de vida microbiológica. A fosfina é considerada uma bioassinatura (um possível sinal indicador de vida), e na Terra ela é produzida principalmente por microrganismos. A astrobiologia não trata somente sobre a detecção de vida extraterrestre, mas busca respostas sobre como se deu a origem da vida na Terra (por exemplo, qual teria sido a química responsável pelas primeiras formas de vida), além de estudar sobre a evolução e adaptação dos primeiros organismos, que poderiam auxiliar a formação de hipóteses sobre o surgimento da vida em outros planetas ou corpos celestes. No entanto, para alcançar esses resultados é necessária a integração de diversos profissionais, como geólogos, astrônomos, biólogos, químicos, dentre outros. 

A NASA costumava usar o nome “exobiologia” para definir o seu programa de busca de vida fora da Terra, porém, perceberam que antes de buscar por essa resposta diretamente, seria necessário estudar e compreender os processos da vida no nosso planeta, pois este seria usado como modelo para entender a possível origem da vida em outros objetos planetários. Uma das maneiras de estudar o assunto se dá pelo estudo de ambientes análogos (ambientes semelhantes aos encontrados fora da Terra) do nosso planeta. O continente Antártico e o deserto do Atacama, por exemplo, são ambientes inóspitos que abrigam seres vivos que sobrevivem a diversas condições extremas como hipersalinidade, o frio e o calor excessivo, e até mesmo altos níveis de radiação UV.

Como as primeiras formas de vida foram unicelulares, um dos principais alvos de estudo da astrobiologia são os microrganismos extremófilos, que podem servir de modelo para possíveis organismos extraterrestres. Os extremófilos são organismos adaptados a condições extremas para os seres humanos. Ao estudar esses microrganismos, como bactérias e arqueias, conseguimos identificar as características que levaram a adaptação destes em ambientes extremos. 

O Sistema Solar abriga diversos alvos importantes para a astrobiologia, mas primeiro é importante saber que existe uma zona ao redor da órbita do Sol que é mais apropriada para as condições de vida como conhecemos. Damos a ela o nome de zona habitável, em que o principal requisito é a possibilidade de manutenção de água líquida na superfície do planeta e é exatamente onde o planeta Terra se encontra. Para um planeta ser considerado habitável, o planeta precisa ser “rochoso”, ter atividade geológica e, além de estar localizado na zona habitável, ele precisa ter um campo magnético forte o bastante para o proteger de partículas de energia solares.

Então, nossos planetas vizinhos Vênus e Marte são considerados habitáveis? Vênus, apesar de ser considerado gêmeo da Terra e por um breve tempo possivelmente ter abrigado um oceano em sua superfície, não é localizado na zona habitável. As temperaturas de Vênus ultrapassam os 400 ⁰C, devido a um efeito estufa descontrolado, e sua superfície é coberta de vulcões. Vênus é o exemplo do que poderia acontecer com a Terra caso não controlássemos as causas que aumentam o efeito estufa. 

Já o planeta Marte fica localizado na zona habitável e possivelmente já contou com a presença de rios e lagos, porém atualmente é considerado um local inóspito por ser muito frio e deserto, além de apresentar uma pressão atmosférica extremamente baixa se comparado à Terra. Apesar disso, é um grande alvo da astrobiologia por apresentar grande potencial de vida microbiana no passado e por ser próximo da Terra, facilitando o envio de sondas e rovers. Marte possui uma grande concentração de metano (CH4) em sua atmosfera, que pode ser produzido tanto por fatores abióticos como bióticos (de origem biológica) e por isso um dos principais modelos de microrganismos estudados para a detecção de vida em Marte são as arqueas metanogênicas (capazes de produzir metano). Além disso, Marte possui uma superfície coberta de perclorato, um tipo de sal, trazendo a importância do estudo de bactérias e arqueas halofílicas, ou seja, adaptadas à alta salinidade do ambiente.

Entretanto, além da busca de vida em outros planetas, outro alvo de estudo relevante são as luas congeladas de Júpiter e Saturno. Encélado, uma das luas de Saturno, é reconhecida por ter uma camada de gelo recobrindo seu oceano de água líquida. Além disso, foram observados gêiseres de água fria que fazem contato com a superfície da lua. Este satélite tem despertado bastante a curiosidade dos astrobiólogos por conta das suas possíveis atividades geológicas no fundo do oceano, que estão estritamente relacionadas à formação de moléculas orgânicas que poderiam levar ao surgimento da vida. Já Europa, um dos satélites naturais de Júpiter, possui uma fina atmosfera formada por oxigênio, porém sabe-se que não é proveniente de atividade biológica e sim por reações físico-químicas. Em 2020 a NASA anunciou a missão Europa Clipper que levará uma sonda, nos meados da década, com o objetivo de mapear a composição química e geológica da superfície do satélite e, possivelmente, identificar bioassinaturas.

Uma outra questão interessante é que Titã, lua de Saturno também bastante visada para a astrobiologia, é o único local além da Terra que possui meio líquido em sua superfície, porém ao invés de água é formado principalmente por hidrocarbonetos como metano e etano, e acredita-se que compõem lagos e rios. Além disso, sabe-se que há formação de nuvens e até mesmo chuva. Neste ano a NASA também anunciou a missão Dragonfly (com lançamento previsto para 2027) que visa identificar a composição da superfície de Titã e buscar indícios de moléculas orgânicas relacionadas a atividades biológicas. Todos esses fatores tornam o estudo da astrobiologia extremamente fascinante e a cada dia os cientistas têm se tornado mais otimistas para encontrar as respostas que tanto procuram.

Sobre a autora: Fernanda Jamel, estudante e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Referências:

Merino, N.; Aronson, H. S.; Bojanova, D. P.; Feyl-Buska, J.; Wong, M. L.; Zhang, S.; Giovannelli, D. Living at the Extremes: Extremophiles and the limits of life in a planetary context. Frontiers in microbiology, 2019. v. 10. Article 780.

Galante, D.; Silva, E. P.; Rodrigues, F.; Horvath, J. E.; Avellar, M. G. B., Astrobiologia: Uma ciência emergente, 2016, Tikinet, São Paulo.

https://dragonfly.jhuapl.edu/index.php

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