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Por que RT-PCR não é suficiente para o diagnóstico de COVID-19?

Dra. Natalia Gonçalves

Para entender melhor a dinâmica de transmissão da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2 do coronavírus (SARS-CoV-2) e desenvolver contramedidas eficazes, imunoensaios baseados em antígenos e anticorpos serão essenciais. Neste artigo, explicarei a diferença entre as técnicas e a importância da detecção de anticorpos para uma avaliação diagnóstica completa da COVID-19.

RT-PCR: Um rápido resumo 

A reação em cadeia da polimerase (PCR) é uma das tecnologias mais poderosas da biologia molecular. Usando a PCR, sequências específicas dentro de um modelo de DNA ou

podem ser copiadas ou “amplificadas”, milhares a um milhão de vezes, usando sequências de oligonucleotídeos específicos , polimerase de DNA estável ao calor e ciclagem térmica. Na PCR em tempo real, a quantidade de DNA é medida após cada ciclo por meio de corantes fluorescentes que produzem um sinal fluorescente crescente em proporção direta ao número de moléculas do produto de PCR (amplicons) geradas.

A principal vantagem do RT-PCR tem sido sua velocidade e sensibilidade. Depois de usar um swab da faringe posterior do paciente, uma amostra pode ser enviada ao laboratório para fornecer resultados em poucas horas. E como apenas uma quantidade muito pequena de RNA viral precisa estar presente para amplificação, esses testes são altamente sensíveis na detecção de vírus em uma amostra. Controlando as etapas de anelamento, extensão e denaturação com mudanças na temperatura, a amostra inicial de DNA ou RNA viral pode ser amplificada exponencialmente, seguida pela adição de sondas específicas que produzem um sinal detectável (geralmente fluorescente) para confirmar o agente etiológico.

No entanto, o diagnóstico da COVID-19 por RT-PCR tem suas limitações. A detecção do SARS-CoV-2 de swabs faríngeos requer amostras de alta qualidade que contêm uma quantidade suficiente de RNA viral intacto. Ainda, as cargas virais de SARS-CoV-2 no trato respiratório mostraram variar consideravelmente. Isso não apenas levou a altas taxas de falso-negativos, com casos prováveis permanecendo negativos após o uso de vários swabs, mas também está expondo os profissionais de saúde ao risco de infecção.

Para países com recursos limitados, a infraestrutura de diagnóstico e de treinamento são ainda mais difíceis, com muitos sistemas de saúde com apenas alguns laboratórios e técnicos espalhados por vastas áreas geográficas. Governos e organizações privadas estão trabalhando rapidamente para aumentar a capacidade e a velocidade dos testes de PCR, mas como os laboratórios estão sobrecarregados por números crescentes de casos, atrasos e completa falta de testes estão se tornando muito comuns.

Imunoensaios (Teste de imunidade)  

As pessoas podem se sentir seguras para sair de casa?

Os imunoensaios são testes químicos usados para detectar ou quantificar uma substância específica, em uma amostra de sangue ou de fluido corporal, usando uma reação imunológica altamente sensível e específica. Sua alta especificidade resulta do uso de anticorpos e antígenos purificados como reagentes. Um anticorpo é uma proteína (imunoglobulina) produzida pelos linfócitos B (células imunes) em resposta à estimulação por um antígeno. Portanto, imunoensaios medem a formação de complexos antígeno-anticorpo e os detectam através de uma reação indicadora.

Em outras palavras, os imunoensaios são baseados nos princípios de que antígenos específicos estimularão respostas imunes muito específicas; um anticorpo, que se liga a uma proteína específica do vírus em um paciente, adicionando uma proteína repórter adicional, é possível detectar um sinal imunológico específico do vírus para confirmar a presença de infecção viral em andamento (IgM ou IgA) ou infecção viral antiga (IgG e status imune).

Ao contrário do RNA, os anticorpos são duradouros e podem persistir na corrente sanguínea por muitos anos após a infecção. Assim, os imunoensaios nos permitem identificar pacientes que tiveram COVID-19, retrospectivamente (IgG positiva – imunidade). O tipo de anticorpo e seus níveis relativos também podem ser usados para indicar o estágio da infecção e estimar o tempo desde a exposição para rastreamento do contato. 

No entanto, os testes com anticorpos também têm suas limitações. Com os estudos que temos até agora, parece que a resposta inicial de anticorpos IgM ou IgA (infecção aguda) não atinge o pico até ~ 9 dias após a infecção inicial e a resposta do anticorpo IgG não atinge o pico até o dia ~ 11, no entanto, esses dados estão mudando constantemente, pois estamos falando de um novo vírus.

Ao realizar amostragem aleatória de anticorpos do público em geral (conhecido como serosurvey), os órgãos de saúde pública poderiam estimar melhor os verdadeiros níveis de exposição e a imunidade da população resultante. Para a COVID-19, isso seria um divisor de águas, pois a transmissão verdadeira poderia ser calculada para prever a intensidade e a longevidade da pandemia para direcionar a tomada de decisões. Além disso, ao identificar potenciais “hot-spots” geográficos de baixa imunidade populacional, os sistemas de saúde poderiam alocar melhor os recursos para impedir ou gerenciar a transmissão.

Sobre a autora:

Dra. Natalia Gonçalves é doutora em ciências pela Universidade de São Paulo e pela Universidade da Carolina do Norte. É pós-doutora em Genética e Biologia Molecular pela Universidade de São Paulo. Ela desenvolveu um projeto com edição genética CRISPR-Cas9 para a correção da Distrofia Muscular de Duchenne.

Referências:

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[2] Xia, N.; Wang, G.; Gong, W. Serological Test is an Efficient Supplement of RNA Detection for Confirmation of SARS-CoV-2 Infection.  Preprints 2020.

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